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A Natureza Selvagem da Namíbia

Data: 15/09/2009
Fonte: Viaje Mais

Situada ao longo da costa sudoeste da África, a Namíbia atrai basicamente pelos seus dois grandes desertos: o Namib, com 50 mil quilômetros quadrados, que segue a costa do Atlântico e é considerado o mais antigo do planeta; e o Kalahari, avançando para o interior, rumo ao leste, com 260 mil quilômetros quadrados (algo equivalente ao tamanho do Estado de São Paulo).

Os dois desertos ocupam quase um terço da superfície do país e comove de imediato nos confrontando com uma brusca e magnífica mudança de escala. Uma avassaladora natureza que parece ter sido preservada desde sua gênese. A savana é a vegetação que desenha a maior parte do restante da paisagem. No total, a Namíbia tem quase quatro vezes o tamanho do Reino Unido.

Independente há apenas 19 anos (desde 1990), o grande território que ocupa no sudeste africano foi anexado pela Grã-Bretanha no século 19 e, depois, administrado pela Alemanha até o fim o da Primeira Guerra Mundial. Passou então para as mãos da União Sul-Africana, que hoje é a África do Sul, com quem ainda mantém importantes relações econômicas.

A língua estrangeira predominante no país é o inglês. No entanto, os nativos – negros e brancos – se comunicam em africâner, cuja origem está no francês dos huguenotes – protestantes que colonizaram a África do Sul no século 17 – e no holandês. Além disso, os dialetos de tribos como Himba, Herero ou Nama se mantêm em suas pequenas comunidades.

A capital Windhoek (pronuncia-se “vindúqui”) é o ponto de partida. Chega-se a ela num vôo internacional que parte de Joanesburgo, África do Sul. Uma vez lá, a melhor escolha para a obrigatória visita aos desertos Namib e Kalahari são as estradas.

Estranhamente vazias, os caminhos são excelentes, com quilômetros e quilômetros de retas, onde raramente se enxerga algum dos 2 milhões de habitantes do país transitando. Um traço contínuo na tela do GPS que faz o aparelho parecer quase inútil até o Namib-Naukluft National Park, que é anunciado eloquentemente antes mesmo de se chegar a ele. São 400 quilômetros que correm paralelos ao Oceano Atlântico, entre Walvis Bay e a pequena cidade portuária de Luderitz.

Cerca de 100 quilômetros na direção do interior, chega-se à jóia do parque, Sossusvlei, com enormes dunas encravadas no deserto Namib. São cerca de seis horas de carro para ir até o lugar, mas fáceis de dirigir pela excelente conversação das estradas.

Sossusvlei significa “lugar para guardar água” no dialeto do povo Nama. Apesar disso, a planície que circunda as altas dunas é quase sempre seca. Somente na estação das chuvas formam-se pequenos lagos. Os matizes vão do suave amarelo ao intenso vermelho, numa coloração surreal.
As dunas da região, cartão-postal do país, são quase fixas, cristalizadas pelo tempo – e dificilmente mudam de estatura, sendo que algumas atingem perto dos 300 metros. A estrada do parque divide duas delas, conhecidas pelos sugestivos nomes de Big Daddy e Big Mommy, mas a maioria, devido à imobilidade, é conhecida pelos guias por um número. Estruturas para o ecoturismo foram criadas na década de 1990 e prevalecem os lodges em detrimento de hotéis. A diferença entre eles é mínima: “lodge”, oriundo do inglês medievo, significa “uma pequena casa ou cabana, normalmente usada nas estações de caça ou pesca”.

As facilidades variam do básico ao luxuoso, na proporção do bolso do usuário, mas todos provêm as comodidades de um bom hotel, só que no meio do deserto, onde surgem simplesmente do nada. Uma leve indicação na estrada ou o alerta do GPS e chega-se até esses oásis de civilização.

SAFÁRIS CONFORTÁVEIS 
As reservas onde ficam os animais, normalmente vistos nas estações mais secas, estão sob controle de companhias como a Wilderness Safaris, que gerenciam as visitas. Elas desenvolvem uma ação conservacionista e educacional de comum acordo com o governo, integrando a ecologia às atividades turísticas.

Os lodges são habilitados a terem seus próprios safáris, levando as pessoas a passeios com diferentes níveis de estruturas. É possível sair no final da tarde para um happy hour ao pé de alguma duna ou simplesmente ficar num veículo especial fotografando ou filmando diferentes animais que circulam livres.

Um destes lugares especiais é o Kulala Desert Lodge, o mais próximo das dunas de Sossusvlei. “Kulala” do dialeto Oshiwambo, significa “para dormir”. As suítes são construídas em plataformas de madeira, com varandas que descortinam uma vista estonteante, com direito a um rio que aparece e desaparece ao longo do dia. A arquitetura é feita de modo a relembrar as antigas cabanas, mas com todo o conforto contemporâneo que vai do restaurante à loja temática.

O Etosha National Park – oficialmente o primeiro a ser declarado área de conservação, em 1907 – é considerado um dos maiores envolvidos na preservação dos animais em todo o continente africano. São mais de 22 mil quilômetros quadrados onde elefantes, leões, zebras, antílopes, avestruzes, entre outros, vivem naturalmente.

Um desse animais é o majestoso rinoceronte negro (que apesar do nome não é dessa cor, e sim acinzentado). Se tiver sorte, o viajante pode encontrar um espécime cruzando a controlada estrada do parque, como se não existisse mais ninguém à sua volta. No total são 114 espécies, algumas raras e outras ainda, ameaçadas.

Dois grandes lodges estão no parque: o Ongawa Lodge, que possui a Ongawa Private Reserve, com seus próprios safáris e chalés de alvenaria incrustados nas pedras; e o Epacha Game Lodge e Spa, já na categoria luxury e que pertence ao Leading Lodges of Africa, igualmente com sua reserva privada para passeios, largas instalações com direito a SPA e massagens, ar-condicionado e até mesmo internet, apesar de lenta.

VOANDO PELA SKELETON COAST
Para aqueles cuja contemplação da natureza e suas variadas espécies animais ainda não é suficiente, existe o circuito do Skeleton Coast National Park, reserva de quase 17 mil quilômetros quadrados ao longo da costa, cenário muitas vezes intocado e de beleza monumental.

A hospedagem muda substancialmente e o aumento da adrenalina compensa o ligeiro desconforto que por ventura alguém possa sentir em um camp. É isso mesmo: acampamento. Mas, calma, mais adiante você verá que não é tão difícil quanto parece e que a aventura compensa – e muito.
Na chamada “Costa do Esqueleto”, as centenas de quilômetros na maior parte do tempo não revelam um único ser humano. Porém, as focas devem chegar na casa do milhão ocupando praias e pequenas baías. O que restou de naufrágios antigos ou mais recentes – as carcaças dos navios que fracassaram no Atlântico Sul – estão à mostra durante o percurso, assim como as ruínas de antigas minas de diamantes que operavam nas dunas próximas ao mar.

As pequenas praias se juntam às dunas, estas ao deserto. E este às montanhas com formas e tonalidades que parecem infinitas. Quase sempre desertas, são raras as praias onde as pessoas chegam de carro para pescar. O ruído do vento e das ondas quebrando é uma trilha sonora permanente a acompanhar uma paisagem em que uma linha fina divide o céu do chão, onde o verde do mar compete em beleza com o azul do firmamento.

TERRA E AR
Há duas boas maneiras de percorrer a costa e os desertos da Namíbia: por ar, em pequenos aviões; e por terra, em veículos 4x4. O melhor mesmo é juntando as duas, para chegar a pontos que certamente valem toda a viagem.

Um dos melhores guias para essa jornada é o sul-africano André Schoeman, que conhece caminhos incríveis pelo chão, através das dunas, e pelo céus, entre belas montanhas, onde desenha o que quer com seu monomotor Cessna. Segundo filho de Louw Schoeman, um advogado que se tornou pioneiro no ecoturismo e um dos responsáveis pela criação do Skeleton Coast Park, em 1971, André abre trilhas que são pura aventura e diversão desde 1987, quando deixou a universidade e se juntou aos irmãos nos safáris aéreos.

Schoeman voa praticamente desde a infância e quando questionado sobre a dificuldade da trilha, responde, rindo: “Esse não é o caminho mais fácil, mas, sem dúvidas é o mais divertido”. Conta ele entre um rasante sobre as ondas ou numa descida quase vertical de Land Rover entre dunas e rochas.

Um dos pontos de partida para esse misto de vôo e off-road é uma pequena pista (ou algo parecido com uma) em Geluk, próximo a Sossusvlei, em direção aos camps, que através da Skeleton Coast Safaris são gerenciados pela família Schoeman – outra boa empresa que também opera no circuito, com aeronaves e veículos semelhantes, é a Profile Safaris.

No caminho, mar e areia se alternam em abstrações intermináveis à medida que o sol se movimenta, desenhando e redesenhando a belíssima paisagem. Algumas praias na região de Conception Bay servem de pit stop para um lanche ou um rápido banho de mar – ou simplesmente um descanso do barulho do motor do avião. Os vôos às vezes são próximos das montanhas. Nos rasantes à beira da praia, como em Cape Cross, dá até para enxergar cardumes de tubarões.

PAISAGEM LUNAR
As formações geológicas de Ugab (uma série de pequenas montanhas cercadas por dunas, que lembram paisagens lunares) fazem parte do roteiro feito pela aeronave, que é sempre recepcionada em terra por veículo 4x4 que leva, através das trilhas, os viajantes para os camps.

Esses camps diferem um pouco dos campings brasileiros. Na média, tem de oito a dez confortáveis tendas com duas camas, um pequeno banheiro e um chuveiro de campanha do lado de fora – mas tudo com a devida privacidade e abastecido com água na temperatura que hóspede desejar.
Há ainda uma tenda principal, o dinner room, onde todos se reúnem para o café da manhã, um happy hour e o jantar, tudo incluído nos custos, inclusive o bom vinho sul-africano que acompanha o ótimo churrasco de antílope, uma das game meat em abundância na Namíbia. As demais bebidas vão do simples refrigerante ao bom uísque.

Na maioria das vezes operando aos pares, cada aeronave leva somente de quatro a cinco passageiros, o que explica a limitação das tendas e justifica também o atendimento personalizado aos hóspedes. A energia elétrica é gerada por captação solar e usada na cozinha, na refrigeração e para os séricos.

Cada tenda tem sua iluminação à base de baterias e o que conta mesmo no caminho são as possantes lanternas a pilha. Baterias de câmeras, laptops e outros aparatos podem ser carregados nas baterias dos veículos sem problemas. Obviamente, não há internet e o celular – felizmente – não tem sinal, a não ser próximo das cidades.

Normalmente, o circuito é feito em uma semana com os pernoites em diferentes camps. O Kuidas Camp, no Huab River Valley, mostra próximo às suas instalações interessantes formações rochosas e alguns desenhos pré-históricos. Andando ou nos veículos 4x4, chega-se a formações coloridas compostas por lava. As trilhas de acesso são um show à parte, dando ao viajante a sensação de estar participando de um rali no estilo Paris-Dacar.

HIMBAS E HEREROS
O Purros Camp, no Hoarusib Valley, tem uma atração muito interessante: uma visita a uma aldeia Himba. Algumas delas ainda resistem, compostas de pequenas cabanas (parecidas com iglus), nas quais algumas dezenas vivem como há séculos, nas cercanias do Rio Kunene.

Os himbas são povos seminômades, embora hoje se mantenham instalados em suas aldeias. Estima-se que existam somente 6 mil indivíduos e suas crianças freqüentam as escolas providas pelo governo. A maioria anda quilômetros para chegar a elas, ou às vezes pegam carona com os turistas. “Meu bisavô pescava nesse rio, meu avô cuidava dos animais e hoje eu levo as crianças à escola”, conta uma mulher da aldeia Kunene.

As mulheres himba, famosas por sua beleza e intricados arranjos nos cabelos, cuidam dos filhos e fomentam um pequeno comércio de artesanato. A responsável pelo preço final do artesanato é a mais idosa do grupo. O vermelho da tintura do corpo delas se mimetiza à paisagem, enquanto os homens cuidam de seus pequenos rebanhos.

Também é possível, na mesma região, encontrar outras etnias, como os Herero, cujas mulheres se vestem com roupas peculiares e multicoloridas, principalmente os arranjos na cabeça, na qual usam uma espécie de chapéu que lembra um martelo. Apesar do calor diurno, os vestidos são longos e cobrem quase o corpo inteiro, ao contrário das mulheres himba.

Um dos melhores momentos do circuito é a trilha para se chegar até o Kunene River Camp, esculpida na montanha ao lado do rio que faz fronteira com Angola. São descidas quase totalmente verticais em meio às rochas entre o pequena planície onde os aviões pousam e o leito do Rio Kunene.
Outra atração é p tour de barco pelo rio, que revela incríveis formações geológicas de diferentes e estranhos formatos. As pequenas enseadas proporcionam o contato com os jacarés que, tranquilamente, tomam sol nas pequenas enseadas como se não existisse outra vida no mundo.
A visão de animais correndo livres em seus habitats, o contato com etnias ancestrais e o descortinamento de paisagens intocadas são apenas alguns dos grandes prazeres que a Namíbia proporciona.

É uma volta aos tempos em que o homem e a natureza conviviam harmoniosamente, onde nem se pensava em coisas como aquecimento global e que a palavra extinção era mesmo somente mais uma no vocabulário e não preocupava ninguém. Entre lodges e camps, é uma viagem memorável, até mesmo para o interior de cada um, que a vida urbana, às vezes, nos faz esquecer.

PACOTE
O pacote mais em conta é o da Kangaroo Tours – (11) 3066-0266, kangarootours.com.br – que inclui acomodação em cinco noites em hotéis-lodges escolhidos pelo cliente. Custa a partir de US$ 2.330, que inclui também passagens aéreas e traslados de acordo com o itinerário, que passa por lugares como o Deserto da Namíbia, o Naukluft Park e os desfladeiros de Sesriem Canyon.

 

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