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Todos ao Mar

Data: 01/02/2011
Fonte: Revista Lonely Planet

Todos ao Mar
A melhor maneira de explorar a baía das ilhas, na Nova Zelândia, é fazer como os locais: passear pelas águas a bordo de uma escuna ou de uma tradicional canoa maori

Conheça a Baía pelos olhos dos primeiros colonizadores da Nova Zelândia

Sentado no Laís, dez metros acima do deque, tudo desaparece, exceto dois sons: o rugido surdo do vento corre a uma velocidade de oito nós, pontuado pelo ocasional estampido da vela de lona, que incha e ondula sob meus pés suspensos.
A tripulação do R Tucker Thompson está ajudando outros passageiros com os equipamentos de segurança, para que eles possam realizar a fantasia da infância de subir pelo cordame. Para aqueles que não gostam de altura, há um chá com creme para ser degustado.
Essa embarcação majestosa, réplica fiel de uma escuna do século 19, navegou pela primeira vez em 1985. Hoje operado por um consórcio de organizações de caridade, o R Tucker Thompson realiza passeios diários no verão, como esse que fazemos, para financiar um trabalho com crianças locais. “No inverno, levamos crianças para viagens de sete dias”, Explica a capitã Chrissy Gayer, cujo cabelo embranquecido pelo sol indica uma vida vivida permanentemente ao ar livre. “Estar no navio ensina as crianças a trabalhar em equipe. Praticamos navegação, realizamos tarefas rotineiras e vigia noturna. Há muita coisa para fazer em um barco grande como esse.”
Para os marinheiros de um só dia, o ritmo é mais calmo. A maioria dos passageiros relaxa no deque enquanto o Tucker Thompson corta o mar protegido da baía, observamos os golfinhos e pingüins que, de vez em quanto, vêm à superfície como rolhas subindo na água. Outros preferem ajudar os tripulantes a ajustar as velas ou subir no gurupés. Dali, pode-se mirar o oceano mudando de tom de azul enquanto o navio se aproxima das ilhas.
Em Paradise Bay, Chrissy joga a âncora. Apenas algumas embarcações estão atracadas nas águas isoladas que cercam Urapukapuka, um dos 150 pequenos atóis que dão à baía das Ilhas este nome.
Um jovem marinheiro conduz alguns passageiros à praia em uma pequena lancha, e outros nadam à distância. Ao pisar na areia branca da praia deserta, crocante por causa dos fragmentos de conchas, tenho uma vaga idéia do que os primeiros colonizadores da Nova Zelândia devem ter sentido ao chegar a esse éden tropical.
A caminhada por Urapukapuka e a paisagem são uma mistura curiosa de elementos familiares e exóticos.

“Algumas embarcações estão atracadas nas águas isoladas que cercam Urapukapuka, um dos 150 pequenos atóis”
Verdes e onduladas as´das de um cartão-postal descem sobre um terreno coberto de arbustos que lembra o Parque dos Dinossauros. Plantas de espécies diversas lutam por espaço e unem a terra à beira do mar. Afaste-se dos caminhos e encontrará pequenos veles escondido, na maioria desertos, mas às vezes ocupados por estudantes locais em um dia de passeio.
Alguns estão mergulhando com máscaras, outroremando em canoas. Meninos e meninas mergulham em busca de ouriços-do-mar: abrem-nos sobre as pedras para sugar o que há no interior deles: a “Kina”, ou ova, iguaria muito apreciada pelo povo maori.
Antes de nosso almoço ser servido, há uma oportunidade de balanças na corda e cair no mar. Todo mundo tem de ir, até mesmo o passageiro mais velho e mais roliço. A capitã Chrissy está preparando a carne assada. “Esse é meu quinto ano no comando do navio”, conta ela, virando cuidadosamente os pedaços de frango com molho vinagrete. “Vim de Edimburgo há seis anos, consegui um trabalho como marinheira e nunca mais saí daqui. É fácil, quer dizer, dê uma olhada”, diz ela, gesticulando com um alicate de cozinha. Todos os seus traços escoceses desapareceram; ela tem um sotaque neozelandês e um bronzeado dos trópicos.
Chrissy é apenas uma entre tantos europeus que vieram à Nova Zelândia e não foram mais ir embora. A primeira colonização branca aconteceu em Russell, onde o Tucker Thompon atraca para passar o dia. Embora hoje pareça difícil de acreditar, a bela cidade já foi conhecida como “o fim do mundo do Pacífico” – um refúgio para condenados que escapavam da Austrália, bem como de baleeiros e marinheiros bêbados demais para voltar ao mar. Quando Charles Darwin a visitou, durante a viagem do Beagle, em 1835,
Descreveu-a como repleta de “refugo da sociedade”. Hoje, Russell é um lugar muito diferente. Com alguns dos prédios mais antigos da Nova Zelândia, como a igreja de Cristo, erguida em 1836, a cidade parece um set de filmagem meticulosamente construído. Casas elegantes, com cercas de estacas brancas, estendem-se pela orla, e muito restaurantes à beira-mar vivem cheios de clientes abastados. Para quem está comendo ostras recém-colhidas e sorvendo uma taça de pinot gris local, enquanto o sol desce sobre o porto, a vista está mais próxima do paraíso do que do inferno.

Aprenda sobre a cultuara local a bordo de uma tradicional canoa de guerra maori
“Tohiki!”, grita o chefe, como um guerreiro fazendo um chamado vindo de uma era distante.
“hiiii, respondem os tripulantes em uníssono, puxando água com 40 remos e cantando ao mesmo tempo. Enquanto a Waka (canoa) de casco duplo avança sobre as ondas, Hone Mihaka volta-se para mim com sorriso de satisfação. “Nós somos a waka e a waka somos nós.”
Hone é um orgulhoso membro da tribo Ngapuhi, a maior da nova Zelândia e aquela à qual a maioria dos maoris da baía das Ilhas pertence, sua empresa, a Taiamai Tours,
Oferece viagens de waka pelo rio Waitangi, levando os visitantes a explorar a área enquanto aprendem sobre a relação desse povo com a terra. “Queremos envolver as pessoas em nossa cultura e não transformar isso num produto”, diz Hone. Ele zomba dos “shows de cultura” maori apresentados em hotéis locais. “Aqui paga-se por viagem de três horas numa canoa com dois contadores de história. Nossas tradições não estão à venda. São nosso presente.”
A viagem começa no estuário do rio Waitangi, com uma lição sobre como remar um waka e cantar. Enquanto avançamos, Hone permanece na proa decorada com entalhes, mergulhando seu remo no momento certo, mas de vez em quando, ele interrompe o trabalho para indicar um pássaro ou uma planta, um bom lugar para pescar ou uma marae, construção baixa, de tábuas, com telhado coberto de grama, onde as pessoas da família se reúnem.
Hoje, sou o único turista a bordo da wakaos outros são membros da whanau (família estendida) de hone. Primos, tias, irmãos e etos ocupam seus lugares na canoa para o Dia de Waitangi. O 6 de fevereiro é um feriado público no qual é comemorada a assinatura do Tratado de Waitangi, documento da fundação da Nova Zelândia datado de 1840. Todo ano, logo depois do amanhecer, esse dia é marcado pela procissão de uma frota de wakas e tribos de todas a Nova Zelândia participam. “Para meus ancestrais, o dia de Waitangi existia para reunir tribos, nações povos”, lembra Hone.
São poucos os maoris “os maoris “puros” que restam na Nova Zelândia. A maioria também descende dos Pakeha (britânicos e irlandeses, entre outros europeus) que colonizaram suas terras. Hone usa um cobertor xadrez amarrado na cintura, mas quando pergunto o que significa esse traje, ele dá de ombros e ri. “Esse cobertor foi a primeira coisa que vi quando me vesti nessa manhã. Você quer falar sobre minha roupa? Essa é minha roupa”, mostra ele, colocando o punho fechado sobre o peito nu, no centro de uma tatuagem elaborada, sua”moko”.
Cada espiral de tinta, cada linha curva e escura, representa uma parte diferente da terra natal da tribo de Hone. Ele passeia com os dedos sobre o desenho: por Taiamai (a palavra maori para as terras do interior das ilhas da baía das Ilhas), por rios e florestas até chegar ao maior lago de água doce do norte, o Omapere. “minha cabeça olha para o norte”, aponta Hone. “Para o caminho dos ancestrais, para nossa terra espiritual, Hawaiki.” Os maoris acreditam que as almas dos mortos caminham ao longo da 90 Mile Beach – uma faixa litorânea de areia cercada de dunas íngremes – até chegar a Cape Reinga. Ali,no ponto mais ao norte da Nova Zelândia, as almas partem para a outra vida. “Então, todos o oceano Pacífico se torna nosso playground” fala Hone.
Mas atualmente o playground fica em terra firme e chama-se Waitangi Treaty Grounds. É ali que acontecem as principais celebrações do dia nacional da Nova Zelândia. A festa representa a estranha alquimia ocorrida entre duas culturas a partir da assinatura do documento, há 170 anos. Ao lado dos estandes que cendem as delícias maoris favoritas, como Hangi (carne cozida em fogo no chão) e fritadas de moluscos, há barriquinhas que oferecem panquecas e bolos que lembram os festejos de vilas britânicas.
As quatro horas, meninos locais encenam a haka, uma impetuosa dança de guerra, para saudar as canoas que retornaram a salvo da procissão matinal. Uma hora depois, a banda da marinha neozelandesa se apresenta,misturando temas náuticos com versões divertidas de sucesso populares. Com seus uniformes brancos impecáveis, os músicos tocam trombones e coenetas reluzentes sob os últimos raios de sol do dia.
Sentada à sombra de uma árvore, uma família maori ouve o número final da banda e saboreia sundaes de melancia: conchas verdes recheadas de sorvete, nozes e xarope de morango. Além do aniversário da Nova Zelândia, o grupo tem outro motivo para celebrar. Uma mulher oferece um bolo ao mais jovem do grupo, um menino, e começa a cantar suavemente. Logo dezenas de vozes juntam-se a ela, cantando em maori em uma harmonia em três partes, sem esforço.
O Parabéns para Você nunca soou mais bonito.

Ao sabor das ondas, em uma corrida de iate
Com doze metros de comprimento, o Revs é o maior iate do Opua Cruising Club. Com cor de carro de bombeiro e capaz de chegar à velocidade de 20 nós, vale cerca de US$ 400 mil. Mas na baía das Ilhas, o iatismo não é exclusivo de pessoas ricas: todo mundo o pratica. “Somos trabalhadores, professores,  pequenos comerciantes, pessoas de todo tipo”, conta Reece Hesketh, o vice-comodoro do clube. Dono de uma empresa de instalações sanitárias, Reece sequer tem seu próprio barco. “Não preciso!”, diz ele.

“Navegando, sinto como se houvesse um sol queimando dentro de mim”
“Quando quero navegar, há sempre um lugar para mim na tripulação de alguém.”
Essa postura inclusiva estende-se a forasteiros: o clube recebe bem qualquer um que queira experimentar o iatismo para participar de uma das corridas noturnas.
Os aspirantes a marinheiros são abrigados sob as asas de experientes lobos do mar e apresentados às cordas gratuitamente. Na marina, sou recebido a bordo do Revs. Uma corneta soa no início da corrida e, quando o barco começa a ganhar velocidade, sinto o gosto metálico da adrenalina. Em silêncio, Reece me dá uma garrafa retirada de um cooler cheio de cerveja Tui. Como iniciante, minha função é agir como lastro, correndo de um lado para o outro do bardo, quando instruído por um enfático grito do capitão. “Quanto mais plano o barco estiver, mais rápido nós vamos”, diz Reece.
A conversa fiada é mínima e todas as mãos estão preparadas para agir. Cordas são rapidamente desenroladas e estendidas, palavras e números misteriosos são gritados de boreste a estibordo e há uma sensação permanente de urgência. Todos os voltam-se para cima e todos os corações disparam quando o vento atinge em cheio a vela do Revs.
À sua sombra, embarcações menores seguem seu caminho e contornam as bóias que marcam o percurso: pequenos veleiros tripulados por equipes de marido e mulher; um veleiro que parece antigo, com cordame azul; um esportivo catamarã cor-de-laranja.
É esse último, o Orange Peeler, que chega vitorioso. Mas o resultado parece irrelevante para os tripulantes do revs.
Rapidamente, eles são absorvidos pela cordialidade do clube. Da cozinha, logo saem porções de carne de porco assada com Kumara (batata-doce), bife com fritas e peixes. Sentado em uma mesa, bebendo cerveja. Reece está exultante. “Não existem palavras para expressar o que sinto navegando. É um sol queimando dentro de mim”, revela, com o rosto rubro de um prazer infantil. “Há algo na água que me atrai. Perguntei a qualquer pessoa no barco e ela dirá a mesma coisa.”
Nascido em Kent, Inglaterra, Reece é como a maioria dos imigrantes da Nova Zelândia: louco pela vida ao ar livre. “A baía das Ilhas é muito acessível, fácil de explorar e há muitos lugares nos quais é possível ancorar e ficar completamente em segurança.” A Oke Bay, a cerca de 18 quilômetros de Russell, é um dos lugares preferidos de Reece. “Gosto visitá-lo com minha mulheres ou com alguns amigos para relaxar. Quando mergulhamos, pegamos vinho para comer e bebemos vinhos. Se fizer isso, vai entender porque esse lugar é especial.”

2 das melhores operadoras

A kangaroo Tours oferece o roteiro batizado de O melhor da Nova Zelândia, com duração de dez dias. A viagem inclui duas noites de hospedagem em Auckand; duas noites em Rotorua; três noites em Queenstown; e duas noites em Christchurch. O roteiro visitas as cavernas de waitomo; as reservas termais de Rotoua; o fiorde Milford Sound, em Queenstown; e Mount Cook (US$1.854, não incluindo o trecho aéreo do Brasil). A kangaroo é a única operadora brasileira com escritório próprio e funcionários brasileiro na cidade de Auckland (kangaroo.com.br).



 

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